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    releituras 1001

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    releituras 1001

    Mensagem por qiu em Qua 28 Jul 2010, 10:53 am

    pequenos contos ...grandes histórias em poucas palavras .....
    apresentar textos nossos.....eu sei lá..........
    poemas ..........pensamentos ..........
    palavra soltas ...........


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    Mas às vezes, nos acontecem coisas tão belas, que nunca pensamos em sonhá-las.

    Para mim aconteceu... VOCÊ !!!"

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    releituras 1001

    Mensagem por qiu em Qua 28 Jul 2010, 10:54 am

    vou começar por este que me diz muito (espero que gostem)
    Os olhos do abutre
    Alexandre C. Leite

    A Edgar Allan Poe


    Andava à tarde pela Av. Rio Branco quando intuiu que alguém o seguia. Subitamente, girou a cabeça para trás pressentindo que segurariam seu braço. Não havia ninguém, além das centenas de rostos desconhecidos que formam o monstro disforme e imprevisível que chamamos de multidão.

    Continuou caminhando, apressou o passo. Sentia-se zonzo, seus sapatos pisavam sobre uma calçada inconsistente, o concreto nunca antes lhe aparentou ser tão abstrato.

    Convencia-se de que não precisava se preocupar, muito tempo se passara desde que executou a tarefa que lhe cabia. O destino é uma força que se cumpre, mesmo que a fragilidade do arrependimento venha depois, assim ele pensava...

    A primeira vez que viu Rose, naquele sobrado da Rua do Acre, todos os seus sentidos foram tomados por uma paralisia angustiante. O universo congelou quando ela se aproximou e encostou o corpo quase desnudo ao seu. Ela tocou-lhe o rosto e perguntou o porquê dele estar sozinho e com aparência triste num canto do salão. Ele ficou mudo, não conseguiu emitir nem sequer um som; ela sorriu, encarou seus olhos profundamente, deu-lhe um beijo leve nos lábios e se afastou.

    Uma mulher havia lido sua alma, uma meretriz da Praça Mauá o havia decifrado, ele sentia um misto de nojo e surpresa. A lembrança de Rose era a obsessão dos seus dias, não podia mais pensar em nada que não rodasse em torno da daquela imagem feminina que lhe surgiu tão intrigante.

    Ele continuava andando, tinha certeza que alguém o seguia...

    Como poderiam ter descoberto o que fez? Tudo saiu como planejara, tudo perfeito!

    Olhava em volta, na tentativa de identificar seu perseguidor naquele turbilhão de faces e olhos. Nada! Inútil! Seus passos ficaram mais largos, a respiração mais ofegante e as recordações continuavam a brotar em cascata.

    Depois da primeira vez em que a viu naquele prostíbulo, retornou em muitas outras noites para sentir-se próximo a ela. Nunca a tocou, ficava observando seus gestos, tentava ouvir sua voz em meio ao barulho da música ensurdecedora, torturava-se ao vê-la em beijos promíscuos com outros homens. Ela conhecia o seu segredo, ela o invadira.

    Não se lembrava mais do momento em que decidiu fazer o que fez, talvez tenha sido na terceira visita àquele bordel, quando esbarrou novamente com os olhos de Rose o analisando, provocando-o a revelar-se. Rose tinha olhar de abutre, penetrava em suas entranhas e ele passou a sentir uma náusea insuportável, tinha ojeriza à sua presença, aversão à sua existência. Sim! Foi quando identificou aquele olhar de rapina que decidiu executar sua trama amoral.

    Seu coração batia tão forte que podia escutá-lo, sua cabeça estalava em pulsações desordenadas. Por que o estavam seguindo? Como poderiam tê-lo encontrado? Ele pensou em parar e enfrentar quem o seguia, mas apressou o movimento das pernas, correu, queria escapar...

    Antes da execução, dissecou detalhadamente a rotina de Rose, conheceu seu horário de entrada e saída no bordel do Centro da Cidade. Soube que ela saía sozinha e onde pegava a condução que a levava de volta para casa. Certo dia, seguiu a van que a transportava e descobriu que ela morava para os lados da Pavuna.

    Agora, ele poderia traçar o roteiro do seu intento.

    O fôlego começava a lhe faltar, mas as pernas respondiam numa corrida sem rumo no meio daquela selva de rostos anônimos, ele sentia a massa humana se contrair num espasmo voluntário. Queriam esmagá-lo. Ele estava acuado. Seu perseguidor não iria desistir.

    O plano era simples e a técnica que usaria para eliminar a causadora do seu tormento se baseava numa leitura que havia feito há anos, num livro sobre medicina de guerra. Soldados usavam duas facas para apunhalar o inimigo na altura dos rins, simultaneamente. A dor era tão lancinante que a vítima não encontrava força para gritar. Seria assim!...

    Quando Rose lançou-se pela Rua do Acre deserta e sombria, ele a chamou. Disse que havia atropelado um cachorro, pediu que ela o ajudasse a acomodar o animal no carro, que ele iria socorrê-lo. Ela se aproximou, curvou-se para tentar enxergar o cão ferido e ele então fincou, com violência e sincronia, os dois punhais nos rins da mulher.

    Não houve grito, mas um grunhido abafado e terrível ascendeu do asfalto, o corpo de Rose petrificou-se. Ele a lançou no banco de trás da caminhonete e engrenou o carro pelo percurso que levava até a Pavuna.

    Havia muito sangue, mas ele cobrira os bancos com lençóis e toalhas. No meio do caminho, numa rua deserta e escura do subúrbio, enrolou o corpo nos panos e o descarregou no meio-fio. Os olhos de Rose tinham a expressão do vácuo, o abutre estava morto. Ninguém mais conhecia o seu segredo. Tudo era silêncio...

    Suas pernas vacilavam... Desde o dia do assassinato passou a vagar pelo Centro, sabia que alguém passara a segui-lo. As batidas do seu coração oprimiam seus ouvidos, o cérebro queria explodir, não conseguia mais correr, alcançara seu limite. A multidão o envolvia num círculo fechado, seus perseguidores eram muitos, ele ainda tentou um último pique desesperado, mas tropeçou e se viu arremessado, como num salto, aguardando o impacto vertiginoso com o chão áspero. Ele se debateu e bradou a sua culpa enquanto despencava.

    Acordou!...

    Estava amarrado por correias a uma estreita cama de ferro, o ambiente era de penumbra, cortinas de plástico o contornavam, escutou passos em aproximação. Uma mulher vestida de branco surgiu diante dele, lia-se um nome bordado no jaleco que trajava: Sanatório Estadual.

    Ela tocou seu rosto e olhou dentro dos seus olhos. Ele estremeceu e chorou, antes de adormecer novamente ao pico ácido de uma seringa.

    Eram os olhos do abutre!...


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    Re: releituras 1001

    Mensagem por Estrelinha em Qua 28 Jul 2010, 10:56 am

    muito bem qiu.. ADOREI este cantinho..

    qiu
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    Re: releituras 1001

    Mensagem por qiu em Qua 28 Jul 2010, 11:04 am



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    Re: releituras 1001

    Mensagem por Estrelinha em Qua 28 Jul 2010, 11:06 am

    AMO-TE ASSIM



    Amo-te assim

    Sem enfeites nem disfarces

    Ungida pela água.

    Cabelo corrido pelos ombros,

    Olhos brilhantes de alegria e volúpia

    Toda amor mar e harmonia

    Como se tivesses descido do céu

    E uma nuvem fosse o longo véu

    Que nos envolvesse eternamente

    qiu
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    Re: releituras 1001

    Mensagem por qiu em Qua 28 Jul 2010, 11:07 am

    Um conto vazio
    Anna Carolina Paegle


    Pensava a mil por hora e por isso andava sempre cansada...

    Achava ter a vida uma beleza exaustiva e alinhar os pensamentos dava-lhe muito trabalho.

    Costumava costurá-los como uma colcha de retalhos, mas não suportava cobrir-se com ela.

    Foi quando, em um dia estranhamente verde, um gato entrou por sua janela, e, ao puxar um fio, desfez toda a colcha que estava sobre a cômoda, emaranhou-se em linhas e desapareceu no horizonte.

    E ela então, obtendo alguns instantes de pausa ao perder os pensamentos, encontrou-se em sua essência e sorriu sinceramente.


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    Re: releituras 1001

    Mensagem por Estrelinha em Qua 28 Jul 2010, 11:08 am

    COMO SOU FELIZ



    Quando tenho a certeza

    Que não és ilusão, nem sonho

    É uma sensação tão emocionante

    Um sentimento de amor tão profundo

    Que trocaria todo o mundo

    Para viver só contigo

    Para ser só teu.

    qiu
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    Re: releituras 1001

    Mensagem por qiu em Qua 28 Jul 2010, 11:19 am

    A Beleza de um Olhar!!!!!!

    Um olhar é imediato.
    É aquele que primeiro escolhe um tudo para cada um.

    É tão belo que a um olhar entre muitas coisas, escolhe a mais doce e bela para você.

    Um olhar chora,
    Um olhar vibra de alegria,
    Brilha nos mais belos acontecimentos, mas também se fecha ao se deparar com a tristeza, a dor.

    Um dia meus olhos te viram e de ti nunca esqueceram!
    E dentro da minha mente, do meu coração você ficou.
    E de lá nunca mais saíu.

    Por um olhar podemos ter a primeira impressão, boa ou ruim, mas quem julga é o nosso coração.
    Ele nos leva aos caminhos mais diferentes possíveis, onde só você poderá escolher.

    O olhar as vezes é traisoeiro, de tanta raiva pode até matar um outro simples olhar, com um sim ou um não.

    A beleza existe no seu contorno, no seu interior e brilha intensamente.
    No mar, no céu, na terra.

    O olhar sobrevive a quase tudo.
    Só morre se for na escuridão.
    Dá certeza de que nunca vai se abrir, chorar, brilhar ou fazer alguém feliz. Somente assim meu olhar não brilhará.


    (recebi este poema de alguém especial com estas palavras : "És tão alegre ......tão especial ......mas tens um olhar tão triste....") já não é a primeira pessoa a dizer o mesmo ...........


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    Re: releituras 1001

    Mensagem por Estrelinha em Qua 28 Jul 2010, 11:21 am

    qiu escreveu:A Beleza de um Olhar!!!!!!

    Um olhar é imediato.
    É aquele que primeiro escolhe um tudo para cada um.

    É tão belo que a um olhar entre muitas coisas, escolhe a mais doce e bela para você.

    Um olhar chora,
    Um olhar vibra de alegria,
    Brilha nos mais belos acontecimentos, mas também se fecha ao se deparar com a tristeza, a dor.

    Um dia meus olhos te viram e de ti nunca esqueceram!
    E dentro da minha mente, do meu coração você ficou.
    E de lá nunca mais saíu.

    Por um olhar podemos ter a primeira impressão, boa ou ruim, mas quem julga é o nosso coração.
    Ele nos leva aos caminhos mais diferentes possíveis, onde só você poderá escolher.

    O olhar as vezes é traisoeiro, de tanta raiva pode até matar um outro simples olhar, com um sim ou um não.

    A beleza existe no seu contorno, no seu interior e brilha intensamente.
    No mar, no céu, na terra.

    O olhar sobrevive a quase tudo.
    Só morre se for na escuridão.
    Dá certeza de que nunca vai se abrir, chorar, brilhar ou fazer alguém feliz. Somente assim meu olhar não brilhará.


    (recebi este poema de alguém especial com estas palavras : "És tão alegre ......tão especial ......mas tens um olhar tão triste....") já não é a primeira pessoa a dizer o mesmo ...........


    esta super lindo..humm

    qiu
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    Re: releituras 1001

    Mensagem por qiu em Qua 28 Jul 2010, 11:22 am

    lindo mesmo


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    Re: releituras 1001

    Mensagem por Estrelinha em Qua 28 Jul 2010, 11:24 am

    É talvez o último dia da minha vida.


    É talvez o último dia da minha vida.
    Saudei o Sol, levantando a mão direita,
    Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
    Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.

    Alberto Caeiro


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    Re: releituras 1001

    Mensagem por Ti4go em Qua 28 Jul 2010, 4:07 pm

    Estrelinha escreveu:É talvez o último dia da minha vida.


    É talvez o último dia da minha vida.
    Saudei o Sol, levantando a mão direita,
    Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
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    Este senhor assusta-me bem como o resto da "família" dele Laughing

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    Re: releituras 1001

    Mensagem por Estrelinha em Qua 28 Jul 2010, 4:12 pm

    Ti4go escreveu:
    Estrelinha escreveu:É talvez o último dia da minha vida.


    É talvez o último dia da minha vida.
    Saudei o Sol, levantando a mão direita,
    Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
    Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.

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    porque???

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    Re: releituras 1001

    Mensagem por Estrelinha em Qua 28 Jul 2010, 4:19 pm

    Mar Português

    Ó mar salgado, quanto do teu sal
    São lágrimas de Portugal!
    Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
    Quantos filhos em vão rezaram!
    Quantas noivas ficaram por casar
    Para que fosses nosso, ó mar!

    Valeu a pena? Tudo vale a pena
    Se a alma nao é pequena.
    Quem quer passar além do Bojador
    Tem que passar além da dor.
    Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
    Mas nele é que espelhou o céu.

    Fernando Pessoa, in Mensagem



    ChøcøLåtë
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    Re: releituras 1001

    Mensagem por ChøcøLåtë em Qua 28 Jul 2010, 4:36 pm

    qiu escreveu:vou começar por este que me diz muito (espero que gostem)
    Os olhos do abutre
    Alexandre C. Leite

    A Edgar Allan Poe


    Andava à tarde pela Av. Rio Branco quando intuiu que alguém o seguia. Subitamente, girou a cabeça para trás pressentindo que segurariam seu braço. Não havia ninguém, além das centenas de rostos desconhecidos que formam o monstro disforme e imprevisível que chamamos de multidão.

    Continuou caminhando, apressou o passo. Sentia-se zonzo, seus sapatos pisavam sobre uma calçada inconsistente, o concreto nunca antes lhe aparentou ser tão abstrato.

    Convencia-se de que não precisava se preocupar, muito tempo se passara desde que executou a tarefa que lhe cabia. O destino é uma força que se cumpre, mesmo que a fragilidade do arrependimento venha depois, assim ele pensava...

    A primeira vez que viu Rose, naquele sobrado da Rua do Acre, todos os seus sentidos foram tomados por uma paralisia angustiante. O universo congelou quando ela se aproximou e encostou o corpo quase desnudo ao seu. Ela tocou-lhe o rosto e perguntou o porquê dele estar sozinho e com aparência triste num canto do salão. Ele ficou mudo, não conseguiu emitir nem sequer um som; ela sorriu, encarou seus olhos profundamente, deu-lhe um beijo leve nos lábios e se afastou.

    Uma mulher havia lido sua alma, uma meretriz da Praça Mauá o havia decifrado, ele sentia um misto de nojo e surpresa. A lembrança de Rose era a obsessão dos seus dias, não podia mais pensar em nada que não rodasse em torno da daquela imagem feminina que lhe surgiu tão intrigante.

    Ele continuava andando, tinha certeza que alguém o seguia...

    Como poderiam ter descoberto o que fez? Tudo saiu como planejara, tudo perfeito!

    Olhava em volta, na tentativa de identificar seu perseguidor naquele turbilhão de faces e olhos. Nada! Inútil! Seus passos ficaram mais largos, a respiração mais ofegante e as recordações continuavam a brotar em cascata.

    Depois da primeira vez em que a viu naquele prostíbulo, retornou em muitas outras noites para sentir-se próximo a ela. Nunca a tocou, ficava observando seus gestos, tentava ouvir sua voz em meio ao barulho da música ensurdecedora, torturava-se ao vê-la em beijos promíscuos com outros homens. Ela conhecia o seu segredo, ela o invadira.

    Não se lembrava mais do momento em que decidiu fazer o que fez, talvez tenha sido na terceira visita àquele bordel, quando esbarrou novamente com os olhos de Rose o analisando, provocando-o a revelar-se. Rose tinha olhar de abutre, penetrava em suas entranhas e ele passou a sentir uma náusea insuportável, tinha ojeriza à sua presença, aversão à sua existência. Sim! Foi quando identificou aquele olhar de rapina que decidiu executar sua trama amoral.

    Seu coração batia tão forte que podia escutá-lo, sua cabeça estalava em pulsações desordenadas. Por que o estavam seguindo? Como poderiam tê-lo encontrado? Ele pensou em parar e enfrentar quem o seguia, mas apressou o movimento das pernas, correu, queria escapar...

    Antes da execução, dissecou detalhadamente a rotina de Rose, conheceu seu horário de entrada e saída no bordel do Centro da Cidade. Soube que ela saía sozinha e onde pegava a condução que a levava de volta para casa. Certo dia, seguiu a van que a transportava e descobriu que ela morava para os lados da Pavuna.

    Agora, ele poderia traçar o roteiro do seu intento.

    O fôlego começava a lhe faltar, mas as pernas respondiam numa corrida sem rumo no meio daquela selva de rostos anônimos, ele sentia a massa humana se contrair num espasmo voluntário. Queriam esmagá-lo. Ele estava acuado. Seu perseguidor não iria desistir.

    O plano era simples e a técnica que usaria para eliminar a causadora do seu tormento se baseava numa leitura que havia feito há anos, num livro sobre medicina de guerra. Soldados usavam duas facas para apunhalar o inimigo na altura dos rins, simultaneamente. A dor era tão lancinante que a vítima não encontrava força para gritar. Seria assim!...

    Quando Rose lançou-se pela Rua do Acre deserta e sombria, ele a chamou. Disse que havia atropelado um cachorro, pediu que ela o ajudasse a acomodar o animal no carro, que ele iria socorrê-lo. Ela se aproximou, curvou-se para tentar enxergar o cão ferido e ele então fincou, com violência e sincronia, os dois punhais nos rins da mulher.

    Não houve grito, mas um grunhido abafado e terrível ascendeu do asfalto, o corpo de Rose petrificou-se. Ele a lançou no banco de trás da caminhonete e engrenou o carro pelo percurso que levava até a Pavuna.

    Havia muito sangue, mas ele cobrira os bancos com lençóis e toalhas. No meio do caminho, numa rua deserta e escura do subúrbio, enrolou o corpo nos panos e o descarregou no meio-fio. Os olhos de Rose tinham a expressão do vácuo, o abutre estava morto. Ninguém mais conhecia o seu segredo. Tudo era silêncio...

    Suas pernas vacilavam... Desde o dia do assassinato passou a vagar pelo Centro, sabia que alguém passara a segui-lo. As batidas do seu coração oprimiam seus ouvidos, o cérebro queria explodir, não conseguia mais correr, alcançara seu limite. A multidão o envolvia num círculo fechado, seus perseguidores eram muitos, ele ainda tentou um último pique desesperado, mas tropeçou e se viu arremessado, como num salto, aguardando o impacto vertiginoso com o chão áspero. Ele se debateu e bradou a sua culpa enquanto despencava.

    Acordou!...

    Estava amarrado por correias a uma estreita cama de ferro, o ambiente era de penumbra, cortinas de plástico o contornavam, escutou passos em aproximação. Uma mulher vestida de branco surgiu diante dele, lia-se um nome bordado no jaleco que trajava: Sanatório Estadual.

    Ela tocou seu rosto e olhou dentro dos seus olhos. Ele estremeceu e chorou, antes de adormecer novamente ao pico ácido de uma seringa.

    Eram os olhos do abutre!...


    Edgar Allan Poe...o mestre dos contos de terror Razz

    Boa escolha. Também gosto de ler contos dele Smile

      Data/hora atual: Sex 25 Maio 2012, 9:18 pm